terça-feira, 23 de junho de 2015

O Céu, a Terra e o Mar

Para te encontrar
exorcizei
a terra
o céu
e o mar
Encontrei-te!
E, hoje
Peço que me devolvam o chão,
porque não tenha onde pisar
peço que me devolvam o céu,
porque não vejo
o sol
a lua
nem as estrelas a brilhar
peço que me devolvam uma só onda
E, eu
chamar-lhe-ei: Meu mar!
Peço que me devolvam a vida
porque me perdi,quando te encontrei no meu olhar!
 

Por vezes

E por vezes
por vezes…
Sou tão escassa que temo não me bastar
E por vezes
por vezes… mergulho no meu azul infinito e singular
E por vezes
por vezes…
sou floresta virgem subtraindo a claridade ao solo
E por vezes
por vezes…
sou mar bravio que morre no areal do teu colo
E por vezes
por vezes…
sou astro e sangue quente nos teus braços ausentes
E por vezes
por vezes…
sou aquela que nada possui e sonha dar-te do mundo todas as cidades
E por vezes
por vezes…
sou imaculada aos olhos da imbecilidade
E por vezes
por vezes…
sou o meu próprio e indizível tormento
E por vezes
por vezes…
sou quem não reconhece a sua própria pele na pele do tempo
E por vezes
por vezes…
sou a libido que te agita, provoca e abandona
E por vezes
por vezes…
sou o grito abafado o gemido contido num cenário envenenado
E por vezes
por vezes…
sou margem, sou centro, sou aragem sou lamento,
E por vezes
por vezes…
sou apenas um cigarro que não fumo e sufoco entre os dedos
E por vezes
por vezes…
sou breve, intensa, sou ave, sou uma fera que me atenta
E por vezes
por vezes…
sou coragem, sou medo, sou desabafo, sou segredo
E por vezes
por vezes…
sou apenas a eternidade dos versos que amo e não escrevo
Apenas… Por vezes!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Procuro-te

Procuro-te
no cume das montanhas
e não te encontro...
desenterro-te das profundezas da terra
e não te reconheço
mergulho no fundo dos oceanos
e não consigo tocar-te
voo com as aves em céu aberto
e não te vejo
procuro-te
nas multidões
e todos os rostos me parecem disformes
de uma violência enorme...!
Não, não te encontro
nem te procuro mais
porque não sei jamais onde te procurar...
e destroçada a minha alma vocifera num grito abafado
e, é aí que em mim que te identificas, adormecido e tatuado
intacto no sagrado
e despedaçado no profano indefinido.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Silabas mudas

***
Caem sílabas mudas
nas pedras nuas
da rua quente
Não passa ninguém...
Só cantam as aves
e apenas as folhas indiferentes
mergulham
na sombra das árvores

* * * .

Meu sonho intacto

* * *
Sonho-te intacto
nas minhas mãos inertes
e num segundo eterno
de pedra e terra quentes
faço-te meu somente
em poemas que enlouquecem
adormecidos
E tu não sabes, nem sentes
O quanto me és querido.



* * *

Apeteces-me

 Sim, apeteces-me
como se fosses carne e osso
e se não te vejo
oiço-te.
Ah como amo amar-te
neste desejo em esboço.
Como amei provar-te
quando eras transparente
agora que não te vejo, nem oiço...
Sei que não te amo mais
e que tudo não passou de um sonho pertinente.
Mas apeteces-me indiferentemente
Talvez eu em ti me quisesse saber quem sou.
Aprovado está o desejo
que nos consome, e de nós some, depois de consumado.
Apeteces-me...
Oh palavras...Que tão bem sabem, quando me falam e as escrevo!
Palavra, apeteces-me!

Dei-te colo e choras-me


***
Gosto de improvisar
no que escrevo
gosto de caprichar
naquilo que não vejo

**
sou como a espuma
que depressa se esvai
no areal de sol e bruma
que a meus pés me cai
**
e se um dia eu for onda
abraça-me amor, não hesites
estou disfarçada de mar
pra que outro não me cobice
**
o meu caminho é incólume
segue-te, sem escolher se há lume
nos passos que dou parada
em direcção ao amor, ou ao nada
**
se me encontrares por ai
olha-me amor e sorri
eu ficarei a saber, então
que estou perto de ti
**
se os poetas não fossem loucos
quem de louco o seria
antes poetas e poucos
do que loucos sem poesia.
**
O meu mundo não tem tamanho
faço dele um gigante a cantar
e depois de o agigantar tanto
fujo para dentro de mim a chorar
**
Poetas, poetas escrevam sempre
porque sem a poesia sois incompletos
e do que vale viver com saudades do vento
E chorar o frio num tempo ardente
***

Des/amar/ des/umano

Não sei onde foi que errei...
Mas também que me importa...
Se errar é vida
E quem não erra, está morta!
Vou continuar errando, certamente
pois que me seja urgente errar
e amando, vou
indiferente, ao que me sou.
E se o céu chorar por mim
que seja de alegria insana
porque amar não é utopia
E (des)amar, é desumano.

Quero-te tanto!

* * *

Como te quero que nem sei dizer o quanto...


E enquanto te espero não sei o que fazer com o tempo?

* * *

Apenas


Apenas um beijo
sem pedir
apenas um abraço
a sorrir
apenas uma ave
a voar
apenas uma onda
a morrer
apenas um sol
para aquecer
apenas uma estação
pra viver
apenas uma pedra
a chorar
apenas uma noite
pra amar
apenas uma voz
no ar
apenas tu
em tudo..
perdido de ti
Apenas!

* * *

* * *

Hoje até nas sombras te sinto e nas vozes dos outros te oiço.

* * * 

Inquietude

Que inquietude é esta?
que me devora inerte
e se demora
Mas tudo me diz que passa
é só mais uma sombra
e vai embora
Mas tudo me diz que és meu,
e tudo me pede que não me demore.
Que inquietude é esta?
que me confunde e enlouquece
que me prende, solta e arrefece
que me esquece e promete recordar.
Que inquietude é esta?
que extinguiu o fogo do meu corpo
e o deixou na sombra de outros sóis
Onde já nem sei se adormeço
ou se sonho como todos os mortais.
Só sei que já não me reconheço
E apenas me pareço,
com alguém, que à vida emprestou,
Tudo o que tinha de seu
e a vida usou e gastou,
e hoje vagamente me lembro quem fui, ou quem sou.

Gozada a vida



Quero a vida
arrepiada
despenteada
adormecida
acordada
maquilhada
limpa
imunda
suave
funda
em sossego
desassossegada
amarga
doce
dura de roer
a seco
molhada
soalheira
ou trovejada
quero a vida
num beijo
num abraço
num amasso
numa bebedeira
numa loucura inteira
num sofá a lê-la
numa cama a amá-la
quero a vida
grávida de mim
e eu, grávida dela
e, ao pari-la
pela vida fora
vou sorrindo
vou chorando
vou gritando
vou escrevendo
vou cantando
vou dançando
e nessa caminhada eu digo à vida: puta que pariu vou gozar-te com a arte que te é devida... Vais ver?!
E pudesse eu ser eterna que me havias de temer?!
mesmo assim te digo: Nada temo
Nem as sombras que me envias me metem medo
E se um dia vou ser pó
que seja num dia de grande vendaval
para correr o mundo inteiro, à boleia
agora enquanto for carne
vou-te dar muito trabalho...
hás-de roer-me com dentes de alho
e depois de te sufocares, vais cuspir-me e dizer":Dou-te vida novamente superaste todas as provas, com a nota que vale a pena ter!"

Cai a noite


Cai a noite
E a música nasce no meu corpo
E no teu corpo
E a lua dança connosco.
Os livros adormecem na mesa de cabeceira
Os copos de champanhe cristalizaram
Na hora em que os nossos corpos colados dançaram.
Cai a noite
E a música não pára de nascer
No meu corpo
E no teu corpo
As paredes são musica
E os nossos corpos possuem um desejo vegetal
Que escorre pelas portas e janelas do nosso interior
Cai a noite
E lá fora a vida parou
Mas nós existimos...
Num desejo animal que não resiste
Em dançar a música que os nossos corpos exigem.

Uma Sereia ou um Deus?!




Vejo uma sereia a passear-se no mar
Vai ondulante, seca, insegura e lenta
Qual prostituta em desalentado silêncio nos túneis da negrura.
Escondo-me na reticência impura do meu tempo
 Mas não tenho como disfarçar ao que assisto
E com um lenço de seda pura, insisto…
Em secar as lágrimas do seu sangue.
Ruborizada a sereia ao sentir-se observada
Diz-me em tom de voz sofrida e doce  
“Eu também escuto os teus lamentos
Qual arcanjo em jejum por longos tempos,
Sempre que perdes o chão do teu céu sagrado
 E te prostituis na timidez dos teus versos Ateus
Esquecendo-te de ti e encarnando num Deus.
Num Deus que te abraça com flechas de fogo
E o coração hostilizado pelo abismo da tua memória”
E com um pedaço de céu bordado sobre mim fez história
Com nuvens espessas de paz e amor
Seca as lágrimas de todos os poetas porque eles não merecem
Sofrer tanta dor… Nem tão amarga inglória.