terça-feira, 28 de julho de 2015

Tenho um cais dentro do peito



Tenho um cais dentro do peito
um cais que se some no nevoeiro
e me deixa solitária e presa
às manhãs que não me pertencem.
Sobra-me um muro
um muro de gente indiferente
encostado ao cais
onde invento as tardes de gente que não sonha.
E os navios dormem lá longe
sem gaivotas a voar sobre si
porque ficaram aprisionadas ao meu peito
e gemem-me moribundas
dizendo que não têm forças para partir.
Tenho um cais dentro do peito
que hei-de voltar em mim a reconstruir.
cheio de gente a vibrar, de barcos espertos e gaivotas a sorrir.


terça-feira, 14 de julho de 2015

Quando eu de mim já não for


Deixa repousar sobre mim
a madrugada
Tenho medo da escuridão
e do silêncio do nada
Deixa ficar também uma flor
uma rosa encarnada.
Depois, podes ir meu amor
eu ficarei encantada
no meu túmulo de luz e cor.
Mas antes de ires embora
ajoelha-te e reza
Reza-me um poema qualquer
Um poema que fale de amor e paixão…
Dum homem e d´uma mulher
Depois vai…
Vai embora por favor
Temo que eles te vejam
e te queiram como eu ainda quero
e nada me seria agora mais penoso e severo.
O dia já vai alto e eu preciso sair de mim.
E tu não podes mais me acompanhar
porque eu já não assento os pés na terra pra caminhar.
Agora serei o teu guia... E sem que me vejas
Vou seguir-te pra onde fores
e todas as noites, serão dia...
e vou proteger os teus passos de todos os malfeitores
e o teu corpo de todas as dores.
Vai meu amor, mas volta... !
Volta sempre com um poema pra me rezar
serei a alma mais grata que ao Céu vai espreitar
Obrigada meu amor
pela rosa
pela luz que me deste
pelos poemas que me rezas nesta vida celeste…
Vai...!
Obrigada meu amor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Estão cansadas as minhas mãos



Estão cansadas as minhas mãos
E deixam marcas nas paredes do meu rosto
A minha pele franze-se ao frio que entra pelas janelas da mente
Estou cansada e nada tenho que me seja urgente
Somente portas e janelas voando do meu corpo
Corpo, que aprisiona o sangue que se dilui em absolvição
Como um rio que se pavoneia sem fôlego.
Há uma face translucida que me sorri morna
Num espelho disforme num ato decomposto
Sobram-me aves… Falta-me rosto
E dentro de mim ergue-se uma voz confusa e magoada
Que me grita mas, eu não entendo absolutamente nada!
Desenho no chão uma boca a sorrir
Adentro-me e deixo-me ir.
E as palavras engasgadas com o meu corpo
Dizem-me sufocadas:

Estou tão cansada de ver o que nenhum vê
Estou tão cansada de sentir o que nenhum sente
Estou tão cansada de ser repetidamente
Um dia novo a anoitecer na gula do tempo que tanto mente.
A minha alma está cansada e afasta-se de mim
Talvez pra descansar…?!
Dizendo-me:” Até sempre!...”