quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quem és tu?



Quem és tu?
Que me prende na noite branca
E me abraça com o luar nos ombros
E num silêncio total e gasto
Me solta o peso de todas as palavras que arrasto.
E de todos os voos que nos meus braços aprisiono 
Quem és tu?
Pergunto no silêncio que me desperta
O sangue ainda quente no vazio inerte do meu leito
Sangue que invade e vaza a timidez de todos os meus rios
Onde solitária e breve me delicio
Numa serenidade que vocifera a minha alma silente. 
Quem és tu?
Que na noite longa e exaltada me devolve a luz
Em atalhos de estrelas bordadas que me queimam como brasas
Me devoram e cospem sem dó.
Ainda hoje permaneço na dolorosa espera
Que um dia me devolvas todos os beijos
Que deixei nos teus lábios e faltam na minha boca. 
Quem és tu?
Que um dia me disse
Que todas as vidas têm caminhos semelhantes
Sentou o tempo no seu colo
Adormeceu as tempestades sem rumo
E acordou as tardes vagarosas no brilho dos seus olhos. 
Quem és tu?
Que das estradas fez tapetes em delírio
Colheu flores em muralhas de gente
Na minha boca escreveu o seu nome
E no meu corpo depositou a semente
Que faz nascer poemas órfãos de frio. 
Quem és tu?
Que me apontou o vulcão quieto e manso
Que enfrentámos com olhares de espanto
Me fez acreditar com voz firme
Que todos os rios têm fome
E que todas as pedras sabem cantar. 
Quem és tu?
Que me talhou tão imperfeita
Que de tudo fiz uma verdade
Julguei ser uma deusa no teu colo, vesti-me nua, com sedas de outros mundos
Fiz amor nas estrelas e habitei deleites profundos
Mas também que importa se a perfeição não conhece todas as portas
E as ilusões são de quem as conduz. 
Quem és tu?
Que neste altar vivo onde te pouso
Choram mil chagas em mim do tanto que me espantas e espancas
Como um vil escravo monstruoso.
E num profano sorvo experimento-me sem me mentir
Como um santo, um pregador e um pecaminoso!
Oh meu Deus, quem me dera ser outra naquela que sou
Amar-te seria o verso mais vivo que alguém já gerou.
Quem és tu?
Quem sou eu?
Quem foi que me fez crer
Que escrever é tocar em multidões de poetas
Em pedras quietas e em céus a arder.


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