sábado, 11 de fevereiro de 2012

Abri o dia


Abri o dia como se fosse um presente, retirei-lhe o laço que o cingia ao pensamento.Com as mãos gélidas fui retirando, uma a uma, as recordações que aquele presente continha. Abri-o cuidadosamente e deixei entrar as nuances que o coração não quer apagar. Abandono-me em mim, e deixo-me conduzir pelo sofrimento que inevitavelmente queria sentir, pedi em oração que fosse breve, pois não sei mais até quando o suportar.
Caminhei num vórtice, repleto de sons que me gritam piedosamente, para esconder as memórias mensageiras da tua ausência.
Mas, elas teimam em concordância fazerem-se presentes, e, eu, dou-lhe abrigo sempre.
Aquele presente, mais uma vez era igual a todos os que recebo. Contém a saudade embrulhada em cetim, com uma laço ténue, que me embriaga os sentidos e me faz recuar no tempo em que inalei o aroma do mais puro odor.
Abraçada, aos meus braços, abracei-te, alcançando por instantes o bater do teu coração contra o meu peito. Olhei o relógio, eram 9,15 horas da manhã, os ponteiros pareciam dois braços abertos, como se também eles, estivessem a abraçar-te.
As lágrimas que teimam em ser armazenadas, soltaram-se desaguando pelo meu rosto, como rio que corre em paralelo com a amargura. Bebi aquelas lágrimas, porque as senti tuas…Queria provar-te mais uma vez, o sabor que senti, era doce, tão doce, como os abraços que nos levavam de imediato, às nossas bocas entreabertas, onde o salivar e o desejo dançavam a par.
 O brilho daquele momento enevoou-me, compôs uma visão desfocada, mas tão real de ti! Sorrias-me como um fantasma, os teus olhos brilhavam mais do que o sol que entrava pela minha janela, o calor que senti era tão físico, que receei estar louca, gritei silenciosamente, p´ra dentro daquele presente…Dentro dele fez-se eco…E ouvi a minha alma murmurando. “Não, não quero mais visões enevoadas, não quero abrir mais presentes distantes…Ausentes, quero clarear os meus olhos, cansar os meus braços no abraço que religiosamente guardo, nos meus braços”.
Guardei o dia, no fundo de um baú de pedra, ladeado de jasmim, com uma lápide onde se pode ler; “Aqui jaz, mais um dia p´ra esquecer”
Voltei-lhe as costas, como quem quer fazer o luto longe daquele lugar, julgando tê-lo tumulado devidamente. Mas em vão! Sinto-o ainda a acompanhar os meus passos como se imortal fosse este sentir.
Por fim, cedo à tentação de o perpetuar, tentando perpetuar-me, sei que não morrerá sem mim!

2 comentários:

  1. Achei este teu texto impressionante.
    Não só pela qualidade literária que ele contém, mas também pela clareza de sentimentos expostos.
    Beijo, querida amiga Mel.

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  2. Mel, seu texto é ótimo, envolvente e com detalhes na medida!

    Beijo!!!

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